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segunda-feira, 11 de junho de 2012

As origens e atuações da Imprensa Nanica

Por Betina Lodi

Na década de 60 o Brasil passou por um momento delicado no governo, quando a crise política se arrastava desde a renúncia do presidente Jânio Quadros no ano de 1961. Na época o vice-presidente era João Goulart, o qual acabou assumindo a presidência em um clima atípico e tenso. O governo de Jango teve um perfil marcado pelo início das organizações sociais quando trabalhadores, organizações populares e estudantes ganharam espaço, causando grande preocupação na elite conservadora.

As tensões sociais, as revoltas e o clima político se agravavam cada dia mais. Em 31 de março de 1964 tropas saíram às ruas e para que não ocorresse uma guerra civil, Jango se exilou no Uruguai. Foi então que ocorreu o maior Golpe de Estado da história, quando os militares tomaram o poder.

A partir daí deu-seinício afase da Ditadura militar, que é o poder político efetivamente controlado por militares, e que fez parte da história brasileira pelo período de 1964 até 1985. Essa longa etapa foi marcadapela desorganização, falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, perseguição à política e repressão a todos que se opunham ao regime militar.

Em meio à tamanha opressão, a população também teve que aceitar a repressão aos movimentos sociais e manifestações de oposição, assim como a censura aos meios de comunicação, que não podiam citar nada sobre o tema.  Entre todos estes acontecimentos entrou em cena a chamada imprensa nanica(chamada assim devido ao formato pequeno, de tabloide), alternativa, que visava dar voz a quem não podia tê-la.

O jornalismo alternativo nada mais é que a prática jornalística feita por veículos de comunicação e instituições fora do campo da mídia, e passou a existir justamente para cobrir fatos e informações ignoradas ou negligenciadas pela mídia soberana.

Entre 160 jornais nasceram durante o regime militar e os temas abordados eram bem diversificados transitando pelo feminismo, ecologia, sátiras políticas, culturais etc. Todos eles carregavam algo em comum: a determinada oposição ao governo.

Como muitos no Brasil eram reféns do regime militar, a única forma possível de a sociedade tomar conhecimento do que estava acontecendo era através da imprensa nanica. Nos periódicos eram noticiadas as formas de torturas, os graves crimes praticados no país, a conivência do Estado com grupos nacionais e multinacionais que controlavam a economia, a violação dos direitos humanos, a dívida externa etc.

Esses tabloides publicavamsemanalmente, quinzenalmente, mensalmente e eram extremamente perseguidos pelos militares. Entre eles, destacaram-se “O Pasquim” e “Opinião” do Rio de Janeiro, “Movimento” representando o estado paulista e “Resistência”com origem em Belém do Pará.

Em homenagem a estes jornalistas que enfrentaram o regime militar, cito Vladimir Herzog. Este homem se formou em filosofia pela USP e após sua graduação, trabalhou em importantes órgãos da imprensa no Brasil. Na década de 70, assumiu a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura e teve outras importantes atuações. Em sua maturidade, Herzog passou a atuar politicamente no movimento de resistência contra a ditadura militar, como também no Partido Comunista Brasileiro.

Em 24 de outubro de 1975, época em que Vladimir era diretor da TV Cultura, agentes do II Exército o convocaram para prestar depoimento sobre ligações que ele mantinha com o Partido Comunista Brasileiro (considerado ilegal pelos militares). No dia seguinte Herzog compareceu a convocação, foi espancado e enforcado com o seu próprio cinto.

 Vladimir Herzog foi um grande nome da forte oposição ao regime militar e marcou a história por sua busca incessante por justiça veiculada na imprensa alternativa.



“Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”. (Vladimir Herzog)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Imprensa Alternativa: uma brevíssima introdução

Por Pierre Meirelles

Durante os 15 anos de ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1980, nasceram e morreram cerca de 150 periódicos, que tiveram como traço comum a oposição intransigente ao regime militar. Ficaram conhecidos por imprensa alternativa ou nanica.

A palavra “nanica” foi inspirada no formato tablóide desses periódicos, que correspondem à metade do formato standard, adotado pela grande imprensa. O termo foi disseminado principalmente por publicitários, no curto período em que eles se deixaram cativar por esses jornais. O termo também poderia ser associado à conotação de pequenez, que corresponderia à visão da grande mídia em relação à imprensa alternativa. O significado da palavra "alternativa", por seu turno, incorpora quatro das características que marcaram a imprensa dita nanica: a de algo que não está ligado às políticas dominantes; a de opção entre duas coisas reciprocamente excludentes; a de uma única saída para uma situação difícil e, finalmente, o desejo das gerações dos anos de 1960 e 1970 de protagonizar as transformações sociais que pregavam.

A liberdade de expressão no Brasil esteve cerceada por ações políticas e militares entre 1964 e 1980. Isso estimulou a criação da imprensa alternativa, que passou a cumprir um papel importante, especialmente a partir dos anos 70, ao dar voz ao livre pensar dos jornalistas, intelectuais e artistas que lutavam pela liberdade de expressão naquele período. O fenômeno da imprensa alternativa foi mundial. Começou nos anos 60 nos E.U.A., e foi seguido por publicações europeias durante o período de protestos estudantis nos anos 70.

Os jornais, almanaques, revistas e suplementos alternativos no Brasil tiveram um papel importante na formação da opinião pública, ao darem voz às questões discutidas pelo movimento estudantil, por intelectuais, artistas, clérigos e jornalistas comprometidos com a criação de novos caminhos para a circulação de ideias e informações. Esses periódicos foram produzidos fora dos padrões vigentes na época e o seu fazer era clandestino, pelo risco que oferecia aos envolvidos na sua produção. De modo amplo, esses periódicos propagavam poesia, cartuns, charges, quadrinhos, matérias e editoriais que ousavam em suas propostas tipicamente contraculturais.

O movimento da imprensa alternativa influenciou a construção das gerações seguintes na grande imprensa, na medida em que revelou uma relação estreita entre a contracultura e a filosofia libertária, deixando, assim, um legado para o entendimento dos movimentos sociais e políticos.

A imprensa alternativa inicialmente caracterizou-se por ter sua formação em grupos estudantis que, unidos por um ideal revolucionário, discutiam uma nova conformação política e ideológica. Ela começou a ganhar maior visibilidade com a publicação do semanário "Amanhã", de São Paulo, em março de 1967.

Também merecem destaque o carioca "O Sol" e o pequeno jornal "Piquete", distribuído na greve  de Contagem em Minas Gerais, no ano de 1968. O "Amanhã" não era dirigido apenas a militantes, mas ao público em geral. Teve vida curta, mais consolidou uma liderança emergente na imprensa, a de Raimundo Rodrigues Pereira. Na preparação da sua edição número 6, a redação do periódico recebeu a visita de agentes do Departamento de Ordem Política Social (Dops), que impediram a impressão do jornal, por conter a reprodução de um discurso de Fidel Castro publicado pelo jornal francês Le Monde.

O episódio não só impossibilitou a edição como determinou o fim do "Amanhã". E esse processo se repetiu com muitos outros jornais alternativos. Mas Raimundo Rodrigues Pereira ressurgiu à frente de dois principais tabloides alternativos de fins dos anos 70: "Opinião", editado no Rio de Janeiro e "Movimento", produzido em São Paulo. De um posterior racha no Jornal "Movimento", foi criado o jornal "Em tempo". Muitos outros nanicos alcançaram prestígio em suas edições, apesar de não conseguirem a projeção destes já citados, pelas condições adversas que encontravam. Caso emblematico foi o do jornal "Ex", que agregou jornalistas que traziam em sua bagagem a experiência de publicações já extintas. O "Ex" foi fechado logo após uma publicação de grande tiragem. Em sua edição final, há uma grande reportagem investigativa que desmentia a versão oficial da morte do jornalista Vladimir Herzog. A versão oficial dizia que o jornalista havia se suicidado na cela em que estava detido.

O espírito do jornalismo alternativo esteve também por pouco mais de um ano e oito meses incorporado à grande imprensa, na "Folha da Tarde". A proposta alternativa foi extinta em meados de 1969, com o decreto do AI-5, quando o jornal teve a sua redação completamente reformulada, antes, portanto, da explosão da imprensa alternativa na década de 70.


KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários. São Paulo: Página aberta,1991, p 5 Referências bibliográficas
PILIGALLO, Oscar. A história da imprensa paulista. São Paulo: Três estrelas, 2012.
KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários. São Paulo: Página aberta,1991.

Para mais informações sobre o assunto, você pode pesquisar no catálogo da imprensa alternativa em http://www0.rio.rj.gov.br/arquivo/pdf/catalogo_imprensa_alternativa.pdf
ou acessar http://www.resistirepreciso.org.br/

Veja a matéria sobre o documentário Resistir é preciso, no programa Vitrine, na TV Cultura. Junho 2011



Veja Bernardo Kucinski, no trecho do documentário Resistir é preciso, 2011. Brasil.