terça-feira, 19 de junho de 2012

A faculdade de José Trajano

Por Felipe Exaltação e João Maia

Em sua edição especial, publicada no dia 23 de Junho de 2010 jornal ex- conseguiu reunir vários dos jornalistas quem nele trabalharam, entre eles José Trajano, hoje diretor de jornalismo da ESPN, e referência no jornalismo brasileiro. Em sua participação, Trajano define sua passagem no jornal ex- como a Universidade que ele nunca havia feito.

 Depoimento de José Trajano:
“O ex- me mudou a vida. Me pôs de ponta-cabeça. Não era nenhum bobalhão. Havia começado no Jornal do Brasil em 1964, com 16 anos. Vim para São Paulo em 1975 rodado: Correio da Manhã, Jornal dos Sports, Última Hora. Mas foi como se jamais tivesse entrado numa redação. Estavam ali Hamiltinho, o haf, que eu havia cruzado em coberturas de futebol; Paulo Patarra; Narciso Kalili; Myltainho; Alex Solnik; Palmério Dória. Com vários havia trabalhado no Panorama, diário de Londrina, Norte do Paraná.

Mas no ex- era outra coisa. Vivíamos numa casa da Vila Romana, era ex- de dia, de noite, de madrugada. E, nos fins de semana, saíamos para vender o ex- e ficar com algum porque não pintava grana. Quer dizer, havia, mas de forma indireta. O Armindo, que cuidava da “tesouraria”, pagava o almoço no Pássaro Preto, e soltava algum caso acertasse nos cavalinhos do Jóquei. No ex-, fui soldado raso. Mas o pouco que convivi foi o bastante para me tornar um sujeito mais consciente, mais ético, mais cético, mais humano. Foi a universidade que jamais frequentei.

Dali em diante, podia bater no peito e gritar “agora, sim, sou um jornalista de verdade”. Devo isso aos inesquecíveis mestres Narciso, Paulinho Patarra e haf, e toda a cambada. Só fui aprender mais com outro mestre, Sérgio de Souza, um dos fundadores do ex-, mas só convivi depois que o jornal foi fechado pelos “homi”.

O ex- me trouxe para São Paulo, logo eu, carioca renitente. Na Paulicéia nasceram meus três filhos. E foi em São Paulo, no ex-, que ganhei forma. Se hoje sou capaz de tocar o barco na profissão é porque venho de longe. Do tempo em que o ex- era o maior orgulho de nossas vidas. Era, não, continua sendo.”

Para visualizar a edição especial completa:
http://www.imprensaoficial.com.br/jornalex/Jornalex.pdf

Um jornal extrovertido

Por João Maia e Felipe Exaltação

Jornalismo de vanguarda, de qualidade e com aquele viés satírico que o fez ser uma referência nacional, mas principalmente pela coragem de seus colaboradores, este era o jornal ex-.

No auge da ditadura militar  quando todos os outros se sentiram obrigados a ficar em silêncio, a edição ex- 16 estampou na capa a manchete liberdade abre as asas sobre nós – a morte do jornalista Vladimir Herzog. Infelizmente a morte de Vlado, como era conhecido Vladimir Herzog, também custou a vida do ex-. Naquele momento o jornalismo brasileiro também viu morrer aos poucos o seu lado jocoso e picante.

Salvo um ou outro colunista, hoje nosso jornalismo é sempre muito sério. Não que isso seja errado ou um problema. Obviamente não é. Mas será que combina com o jeito expansivo e piadista do brasileiro. Falta um pouco do jeito ex- no jornalismo atual, para que a mídia pare de tratar tudo com a mesma monotonia e seja mais espontânea e extrovertida.

Palavras fortes estampadas, nudez, grandes personalidades de forma irreverente, as capas que o jornal ex- publicou foram, entre outras características únicas, uma das grandes armas do jornal. A frase “não julgue um livro pela capa” nunca foi uma unanimidade. A capa é um aspecto importante pois é o primeiro contato que o leitor tem com o jornal, através dela é possível conquistar ou perder um leitor, seja pela beleza da capa, por textos que deixem uma incógnita na cabeça e faça o leitor comprar tal jornal para desvendá-la, assuntos do interesse de todos, etc.

Nesse aspecto o jornal ex- era bem eficaz. Suas capas sempre souberam muito bem como atrair as atenções dos leitores e dos militares. Em plena ditadura, o jornal lançava edições com capas irônicas, ousadas, chamando atenção para o bem, atraindo o interesse de leitores, críticos e outros jornais e para o mal, irritando a ditadura com sua ousadia em pleno regime de censura.

No final, ficam capas memoráveis guardadas nas gavetas dos amantes do bom jornalismo e a esperança de quem um dia larguemos esse jornalismo monótono, cheio de interesses em sua maneira de tratar as noticias do dia a dia e voltemos a ser ousado, criativos e satíricos como o jornal ex- foi.

Charges do Pasquim

Por Jacqueline Patrocínio

Durante o período de Ditadura Militar, o jornal O Pasquim comentava e explicava fatos o cotidiano com humor nas charges políticas. Com grandes talentos, o jornal teve charges memoráveis, que rendem muita história. 

Legenda da imagem formação: Uma das principais formações do Pasquim com Millôr Fernandes em pé, no centro, e Jaguar, Ziraldo, Paulo Francis e Sérgio Augusto, sentados.

Quando o jornal publicou uma montagem com Dom Pedro gritando “Eu quero mocotó!”, a partir do quadro “Independência ou Morte” de Pedro Américo, quase toda a redação foi presa pelos militares, que a consideraram extremamente desrespeitosa.

Entretanto, durante o período de detenção, cerca de dois meses,  o Pasquim continuou circulando, trazendo artigos de colaboradores, como Chico Buarque, Rubem Fonseca, Odete Lara, e Gláuber Rocha.  

Legenda de Mocotó: Montagem de Jaguar resultou na detenção de quase toda a equipe do Pasquim

As charges refletiam as preocupações da sociedade da época. O personagem “Ubaldo, o paranóico” foi criado no ano de 1975 por Henfil, logo após a morte do jornalista Vladimir  Herzog nas dependências do II Exército. 

“A idéia de fazer o Ubaldo foi justamente de colocar a nu a perseguição. Porque pouco se fala dela e muita gente pensa que ela não existe. Ela se tornou tão forte que numa reação de defesa gigantesca as pessoas evitam pensar nela para não se anularem de medo. E acho também que Ubaldo é jornalismo. Estou informando que em 1976 as pessoas estavam com medo de falar no telefone”, revela Henfil na revista Fradim, também alternativa. 

Legenda da imagem Henfil: O personagem Ubaldo em charge sobre o medo de sair às ruas no período de Regime Militar.

Em 1980 o semanário publicou uma charge de Chico Caruso que ilustra Lula na prisão. Na época  Lula era líder do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, São Paulo, e comandou uma greve de mais de um mês de duração no ABC. 

Ele lutava pela democracia no país e contra a perda de poder aquisitivo dos trabalhadores brasileiros. Devido a seu posicionamento, Lula foi preso e  presidência do sindicato sofreu intervenção do presidente general João Figueiredo.

Legenda da imagem Lula: Na edição 567 do jornal o chargista Chico Caruso ironizou a situação de Lula

Em uma de suas charges mais famosas, Ziraldo mostra sua versão para o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O slogan do Regime Militar marcou o governo do General Emílio Médici.

  
No número 46 do jornal, com a frase “Censura Lendo o Material do Pasquim”, charge de Millôr Fernandes satiriza e denuncia a censura que era imposta à imprensa em 1970.


Raimundo Pereira e o Jornal Movimento


Por Gliciele Martins 


Raimundo Rodrigues Pereira nasceu em 8 de setembro de 1940, em Exu, Pernambuco filho de Joaquim Rodrigues de Oliveira e Lindanora Simplício Pereira. Sua carreira é marcada por importantes contribuições para o jornalismo brasileiro. Sua experiência e profissionalismo tornaram Pereira um dos mais respeitados jornalistas da atualidade.

O pai de Raimundo decidiu morar em São Paulo e com 12 anos de idade, Raimundo tem seus primeiros contatos com o jornalismo, primeiramente como cronista de futebol devido sua paixão pelo esporte. Raimundo concluiu seu período escolar em São Paulo e na faculdade decidiu fazer engenharia aeronáutica no Instituto Tecnológica de Aeronáutica (ITA). Na faculdade começou a escrever no jornal O Suplemento e como o país já enfrentava o regime militar, foi expulso do ITA por subversão. Começa aí sua luta estudantil editando o jornal Amanhã em 1967. Atuou também no jornal Folha da Tarde e posteriormente começa seu trabalho no jornal Opinião.

Devido a discordâncias no jornal Opinião ele é demitido e lança seu próprio jornal chamado de Movimento, que se tornou em um grande instrumento de luta contra a ditadura e a favor da população marginalizada.

Com o jornal Movimento Raimundo emplaca várias reportagens que contribuíram para sua carreira de sucesso, tornando Raimundo Pereira um dos jornalistas mais renomados e experientes desse ramo.

Jornal Movimento: começo, meio e fim

Por Gliciele Martins

Apesar do constante controle e opressão, o período compreendido entre 1964 e 1980 foi marcado por muitas discussões e reflexões sobre a realidade. A opressão ao invés de calar faz com que as pessoas pensem mais e tentem buscar alternativas de expressar o que estão sentindo. Essa nuance psicológica inerente ao ser humano foi um dos elementos que contribuiu para o surgimento da Imprensa Alternativa.

Entre os jornais alternativos, o jornal movimento ganhou bastante evidência. E teve seu início a partir de um racha do jornal Opinião, que havia nascido alguns anos antes (1972). O jornal Opinião passou por uma crise e teve início divergências entre Raimundo Pereira, que era o editor e Fernando Gasparian, dirigente do jornal. Como Raimundo já se dedicava ao projeto de um novo jornal, ele propôs um rompimento. O jornal Movimento nasce desse rompimento, e Raimundo começa a buscar novos colaboradores para o seu jornal.

A linha editorial do jornal se baseou em promover um “jornal democrático e popular, independente e pluralista” que lutaria principalmente pela população excluída da sociedade. Mas como todos os jornais, ele sofreu com pesadas censuras e cortes.

           “a censura cortou 3.093 artigos na íntegra, 3.162 ilustrações e uma média de 4.500.000 palavras, até a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi parcialmente vetada pela censura”. (GASTAUD, 2008)

A equipe do jornal era obrigada a enviar um exemplar para os censores do governo que analisavam o que seria e o que não seria publicado. A censura se tornou rotina na redação do Movimento e em todos os outros jornais. Porém, ele conseguiu publicar grandes coberturas durante os seis anos de vigência, como a edição 80 de 10 de janeiro de 1977, que alertava a sociedade sobre as dificuldades no campo e a edição 226 de 29 de outubro de 1979, que discorreu sobre o poder dos bancos e controle exercido por esse grupo sobre a economia brasileira. 

Jornalistas d’O PASQUIM – Millôr Fernandes


Por Vanessa Santarém




Millôr Fernandes um grande cartunista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor, entre outras, provavelmente um dos poucos escritores universais que o Brasil possui. Foi um dos fundadores do jornal "O Pasquim" e um ferrenho lutador pela liberdade. Escreveu em várias revistas entre elas, "O Cruzeiro,  “A  Cigarra” "Veja", porém foi no “O Pasquim”,  que ele obteve grande repercussão.


Ele com outros humoristas fundaram  o jornal durante a ditadura militar, Com textos ácidos, ilustrações debochadas e personagens inesquecíveis, como o Graúna, os Fradins ou o Ubaldo, o semanário entrou na luta pela democracia num dos períodos políticos mais sinistros e turbulentos do país, que começa a atazanar a vida dos militares que se apoderam do país durante esta época, fazendo o país viver num regime ditatorial e passam a haver perseguições aos artistas e intelectuais. Ao mesmo tempo em que combatiam a censura, Millôr, Henfil, Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Ivan Lessa, Sérgio Augusto e Paulo Francis, dentre outros colaboradores do jornal, sofriam com ela. A mesma redação que, em novembro de 1970, seria inteira presa por causa de uma sátira do quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga.

Faleceu no Rio de Janeiro, vítima de parada cardiorrespiratória, em março de 2012.

Frases que foram ditas por ele e que ficaram marcadas:

"O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda." 


"A diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja e não bota o ovo."


"Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada."


"Nunca tantos deveram tanto a tão porcos."


"O preço da fidelidade é a eterna vigilância."


"Toda lei é boa desde que seja usada legalmente."


"Você pode desconfiar de uma admiração, mas não de um ódio. O ódio é sempre sincero."

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Pasquim entrevista Madame Satã

Por Thiago Maia

Entrevista com Madame Satã concedida ao Jornal Pasquim, 
Rio de Janeiro, Abril de 1971


Sérgio - Quantos anos você esteve preso?
Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.

Sérgio – E há quantos anos você está liberdade
Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.

Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande.
Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada que eu levava.

Millôr - Que idade você tem?
Tenho 71 anos de idade.

Sérgio - Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?
Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

Millôr - Você é pernambucano?
Sou.

Millôr - Você está no Rio há quantos anos?
 Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.

Millôr - E que profissão você exercia?
Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.

Millôr - Que nível de instrução você tem?
Sou analfabeto de pai e mãe.

Millôr - Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu próprio nome?
De Satã.

Millôr - Como é seu nome todo?
Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.

Millôr - Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?
É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

Para conferir a entrevista na íntegra acesse a guia Especiais, aqui mesmo no blog

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma puta entrevista

Por Nadson Oliveira


Prostituta, profissional do sexo, especialista em fantasias sexuais. Os nomes são muitos, mas Gabriela Silva Leite gosta mesmo é de ser chamada de puta. Conheça a fundadora de dois puta trabalhos de respeito, a ONG DaVida e a Grife Daspu

Ela é responsável por criar duas instituições importantes. Escolheu ser puta porque gostava de ser, é fanática por joguinhos de computadores – seu preferido é o Final Fantasy 4. É fã de Luiz Melodia. Gosta de Reginaldo Rossi – mas o acha horrível de feio. E se derrete pela neta. Uma pessoa normal até então, se não fosse pelo detalhe acima, ser puta.

Nada de termos politicamente corretos, como prostituta ou profissional do sexo, Gabriela Silva Leite, 54 anos, gosta que chamem as colegas de profissão de puta, e teve suas duas melhores idéias no botequim, a ONG Davida – que cuida dos direitos das prostitutas – e a “putique” Daspu – onde ela e outras prostitutas criam modelitos de roupas femininas e masculinas para vender.

Ali, parada discretamente no salão do Itaú Cultural, passa despercebida, mas, quando é chamada para debater preconceito e cultura junto de Regina Casé durante o projeto Antídoto, dispara a metralhadora verbal e acerta em cheio temas polêmicos como prostituição. Devidamente apresentada, Gabriela reservou quase duas horas de sua agenda atribulada para mostrar quem realmente é – e quem não é também.

Durante o seminário Antídoto, uma garota fez a pergunta que você tanto esperava, se você gostava da sua profissão e como entrou nela. Você respondeu que gostava de ser puta, mas não como entrou na vida. Como foi?
Eu estudava sociologia na USP, mas era de classe média baixa e tinha que trabalhar de dia e estudar à noite. Tinha duas turmas, era a década de 60, tinha o povo que pegava em arma e ia pra guerrilha e a outra turma que era carinhosamente chamada de porra-louca, e eu era dessa turma. Eu ficava nas madrugadas sentada no Redondo (antigo bar no fim da avenida Consolação), ali tinha o hotel Hilton e a boca-do-luxo, e bem na entrada do hotel tinha uma boate muito chique. Ficava olhando aquelas mulheres chegarem tarde da noite pra trabalhar, e meu grande sonho sempre foi trabalhar na noite. Aí pensei: “Por que não vou fazer isso?”. Os primeiros momentos foram difíceis, e percebi que tinha o mesmo preconceito de todo mundo sobre as prostitutas, e depois eu fui indo, e comecei a gostar de conhecer o mundo real, diferente daquele em que eu vivia.

E nessa época já existia a figura do cafetão?
Antigamente, eram mais mulheres, nunca trabalhei em casa onde o dono era um homem. Hoje, tem mais homens, e você encontra por aí uma atividade fora da lei. Eu não sou contra esses caras, os donos de casa, desde que sejam empresários que trabalhem direito, que não coloquem criança pra dentro, que tenham boa higiene, que não coloca o som altíssimo, porque conheço um monte de puta que fica surda, e não tem nenhuma compensação trabalhista, nada, nenhum direito. Eu acho que a gente pode passar por cima disso criando cooperativas e tirando o cara de lado, mas se cinco putas hoje montam uma cooperativa de putas elas entram no mesmo código dos caras, de exploração, por isso o congresso nacional tem que tirar esses caras do crime, para que eles venham a assumir os seus deveres. Hoje é terra de ninguém. Por exemplo, se uma puta vê uma adolescente dentro de uma casa de prostituição, vai denunciar pra quem? Não tem pra quem denunciar, entendeu?

E você concorda que a prostituição salva muitos casamentos?
É muito melhor a prostituta do que a amante. Amante é quem acaba com o casamento. A mulher ser de um homem só, e o homem de várias mulheres, é um valor terrível, que não leva em consideração quando o amor termina. Então, o que acontece é que às vezes o sujeito procura uma amante, duas, três, e começa a brigaiada em casa, porque a mulher não é boba, percebe, mas faz de conta que acredita que aquele marido só fica com ela. Às vezes o sujeito é mais esperto e procura uma prostituta, uma especialista em fantasias sexuais, e são várias as pessoas que têm por hábito procurar uma especialista, porque às vezes ele tem vontade de fazer alguma coisa e não fala pra mulher dele. Cansei de ouvir homens dizer “a minha mulher eu respeito”.

"É muito melhor a prostituta do que a amante. Amante é quem acaba com o casamento."

A boca que beija os filhos não pode ser suja, né?
Exatamente, é isso mesmo, essa é a grande frase, é um respeito meio torto. Tem a questão da nossa cultura católica, em que o sexo com aquela mulher séria e direita com quem você casou só pode ser para procriação, certo? Então é um saco tudo isso, não é do ser humano. Por isso que existe a prostituta.

E como foi a história de o Sebrae negar apoio para vocês?
Foi no Sebrae Rio, e olha que nem fomos pedir dinheiro, apenas capacitação. Fomos convidadas para os estandes do Fashion Rio que iam transar moda de periferia, e nos convidaram por causa da Daspu. Quando terminou o evento, o fulano lá que era presidente do Sebrae Rio nos disse que não tinha orçamento para a gente. Lógico que ele não ia negar diretamente. Depois, estávamos andando pelo recinto, e ele chegou e disse “a primeira coisa que vocês têm que fazer é ir pra escola aprender a ler”. Não sei de onde ele tirou isso, só pode ter sido da cabecinha burrinha dele. Eu falei “quem disse pra vocês que a gente não sabe ler?”, e ele “ué, todas as prostitutas são analfabetas”, aí eu desisti do Sebrae.

E a palavra puta hoje tem perdido o efeito ofensivo?
Tem sim, principalmente porque eu tenho usado muito a palavra. Como eu disse durante o Antídoto, os meios de comunicação usavam “p...”, só que com o sucesso da Bebel [Paraíso Tropical] começaram a deixar de lado a palavra prostituta e usaram puta mesmo. Até quando um deputado chamou o outro uma vez de filho-da-puta, nos defenderam, falando que as prostitutas deveriam ser tratadas com mais respeito.

E quando você perde a cabeça com alguém? Como você xinga?
[Risos] Ah, mando ir à merda, chamo até de filho-da-puta, não tem problema. Porque é assim, você pode perceber a importância da puta na sociedade, o nome pode ser usado para o bem e para o mal.

Quem são os filhos-da-puta do bem e os do mal?
O filho-da-puta do mal neste momento é o Renan Calheiros com seus companheiros dos votos nulos, o primeiro da fila é o Mercadante. Agora, filho-da-puta do bem tem tanta gente, por exemplo, a Regina Casé, é uma filha-da-puta do bem, tem uma história legal de trabalho.

E o que você acha dessa polêmica toda do Bahamas?
Eu acho um absurdo encherem o saco dele, primeiramente tem que perceber que a exploração só vai parar quando legarizarem a profissão. Hoje é o Bahamas, amanhã é outro, e é sempre a mesma história, prende, pega dinheiro, solta e está tudo certo. Pra ser casa tolerada como era o Bahamas, a verdade é que sempre pagam para a polícia, e não é pouco dinheiro.

Você já sofreu violência física?
Nunca, porque eu não tive coragem de trabalhar na rua, sempre trabalhei dentro de casas, nunca me meti com polícia. A grande violência física que a prostituta sofre vem de policial. E eu nunca me meti com drogas pesadas, cocaína, essas coisas, e também nunca tratei mal cliente. Uma vez me meti a trabalhar na rua, mas era ver um carro de polícia que eu saía correndo. Violência psicológica sim, ainda mais que eu sou uma puta pública. Minha filha mais velha já perdeu um cara porque ele descobriu quem eu era e o que fazia.

"Hoje é o Bahamas, amanhã é outro, e é sempre a mesma história, prende, pega dinheiro, solta e está tudo certo"

Já fumou maconha?
Sim, muitos anos atrás. Hoje em dia tenho tantos vícios, fumo um monte, bebo cerveja, e sustentar mais outro não ia dar.

Você disse que o melhor remédio pra dar idéia é a cerveja. Quais idéias você já teve?
Uma foi fundar o DaVida, e depois fundar a Daspu. As melhores idéias vieram tomando cerveja, adoro um botequim pé-sujo. Não gosto desses barzinhos da moda.

Você e suas irmãs se dão bem? Elas pedem conselhos sexuais pra você?
A mais velha sempre passa férias junto comigo, a outra que está em São Paulo só pensa em trabalhar. A gente se dá superbem, conversa bastante, toma cerveja. A mais nova agora acabou de se separar e disse que não quer mais saber de homem nenhum. Eu falo pra ela que isso é uma bobagem, porque quando um amor acaba sempre nasce outro.

E qual o maior preconceito que você tem?
Eu às vezes me vejo em vários preconceitos. Um deles é que tenho mania de comprar sapatos caros, desprezo aquele baratinho, aí uma amiga vem e fala “não quer saber de coisa barata, né?”. É um preconceito contra o mercado popular, né?

E você já encontrou pirataria dos produtos da Daspu?
Sabe que eu ando na rua olhando. Eu olho pra ver se encontro, mas, se encontrar, o que eu posso fazer? Denunciar nas entrevistas como o povo da música anda fazendo? Porque, se você chama a polícia e eles prendem os caras, no outro dia chega mais gente. A pirataria tem a ver com essa sociedade em que falta de emprego, tem pobreza. E a pessoa quer ter coisas de marca e opta
pelo mais barato.

"A grande violência física que a prostituta sofre vem de policial"


Crédito: http://revistatpm.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/puta-de-respeito.html